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07/07/2007 18:39
Carta Aberta à Executiva Nacional do PT
A companheira Maria Helena Alves encaminhou uma Carta Aberta à Executiva Nacional do PT, protestando contra eventuais violações de direitos humanos que teriam sido cometidas pelas forças policiais no confronto com traficantes no Complexo do Alemão. É uma carta emocionada e que merece ser refletida.
Leiam a íntegra da Carta:
Companheiros e companheiras,
Muitos de nós, mais velhos, lutamos árduamente a favor da democracia. Enfrentamos muitas vezes a violência policial. Muitos foram presos, torturados. Outros exilados e banidos de sua terra. Vimos nossos familiares perseguidos e muitos executados, estando hoje entre os inúmeros desaparecidos. Com a bandeira da justiça social e da democracia na mão seguimos adiante e passamos esta luta para a nova geração. São hoje já três gerações nesta luta e nos orgulhamos muito de termos contribuido para a derrota da ditadura.
Acho que nos orgulhamos principalmente de termos fundado o PT e lutado tanto para que o povo oprimido, sofrido, socialmente excluído, sempre perseguido pelas forças policiais, pudesse encontrar no PT o caminho alternativo para a liberdade e para a igualdade social. O PT seria, como foi, o caminho político para a transformação da sociedade brasileira. E com alegria conseguimos eleger o Lula duas vezes, e também eleger representantes para o Congresso Nacional, sendo que o PT foi o partido mais votado nas últimas eleições.
Lembro desta história hoje com tristeza. Já escrevi um informe para a Direção Nacional e também muitos artigos internacionais, publicados na internet e em diferentes revistas de prestígio acadêmico, sobre o que está acontecendo nos últimos dois meses com o cerco do Complexo do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. Lula diz que não se pode combater criminosos com pétalas de rosas e com pó de arroz. Talvez muitos companheiros e companheiras estejam pensando, neste momento, que ele tem razão no que falou. Para mim foram palavras que me feriram o coração como flechas. Chorei. Chorei lembrando de quantas vezes assisti pessoalmente as históricas assembléias dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, das greves de 1978, 1979, e 1980. Chorei lembrando da reação do povo humilde quando Lula foi preso, de como organizamos pelo país inteiro uma imensa e belíssima campanha de apoio aos trabalhadores de São Bernardo do Campo e ao próprio Lula. Contra os militares que cercavam São Bernardo do Campo nesta época, com as metralhadoras ameaçando os sindicalistas, o Sindicato Metalúrgico de São Bernardo do Campo ocupado por tropas militares. Chorei pensando que, nesta época, todos tínhamos bem claro com quem estávamos lutando. E sim, lutamos pela via pacífica, com flores até. Quem não se lembra da marcha das mulheres de São Bernardo do Campo que enfrentaram com as flores as metralhadoras?
Mas o que quero dizer aqui é que os que defendem os direitos humanos, os que estão alertando sobre as graves violações dos direitos humanos que estão ocorrendo no meu Rio de Janeiro, não estão argumentando que se deve combater os criminosos com pétalas de rosas e pó de arroz. Infeliz frase do meu querido Presidente. Não somos ingênuos e nem crianças. O que sim estamos dizendo é que nosso governo, o governo do PT, o governo que deve ser do povo, que tem esta história, não pode recorrer indiscriminadamente à repressão do povo, nao pode usar 1,350 tropas (quase tanto quanto os Estados Unidos empregou em sua violenta invasão de Granada, por exemplo) contra a população pobre em geral. São quase 150.000 habitantes, reféns agora deste cerco violento policial, que foram privados por dois meses de água, de luz, de coleta de lixo. Com as escolas fechadas, com crianças forçadamente transferidas para fora das comunidades, com mais de 46 pessoas mortas, entre elas 19 crianças de menos de 12 anos, e com 76 pessoas feridas gravemente. Com execuções sumárias que a polícia diz ser dos traficantes e organizações de direitos humanos, por outro lado, denunciando internacionalmente que foram policiais.
Em que país estamos? Na liberdade prometida pelo nosso PT ou na África do Sul da época do apartheid, com as populações, majoritariamente negras, sofrendo desta maneira ?
Estou indignada. Não somente eu, que choro pelos sonhos que um dia tivemos todos juntos, mas toda a comunidade internacional de direitos humanos. E, conforme já alertei a meus companheiros e companheiras em artigo que está no nosso site do PT , a denúncia de violação de direitos humanos, de maneira de campanha internacional, já começou. Se nós, militantes, não podemos influenciar a política de governo, tanto a nível federal como a nível estadual, as organizações com prestígio internacional, como a Anistia Internacional, a Justiça Global, a Americas Watch, a Comissão de Direitos Humanos da ONU, a Comissão de Direitos Humanos da OEA, tomarão a dianteira para denunciar as graves violações de direitos humanos que estão ocorrendo no Rio de Janeiro. Que vergonha que estejam começando uma campanha internacional denunciando violações de direitos humanos de um governo federal liderado pelo PT e de um governo estadual com um governador que é nosso aliado.
É óbvio que existem alternativas não repressivas do povo. As ONGs que trabalham com o tema de segurança já têm colocado estas alternativas exaustivamente. Daí surgiu o Sistema de Segurança Pública Integrado, daí surgiram as propostas de investir nas favelas, na area social, nos programas para jovens, resgatando a juventude abandonada que está em risco social. Daí surgiram também as propostas de treinamento de inteligência, de uma elite policial bem treinada e paga, que não se curve à corrupção e que enfrente, de maneira integrada a nível federal, estadual e municipal, os verdadeiros criminosos. Muitas são as propostas e experiências que podem ser usadas. Que não sejam acompanhadas do sofrimento das pessoas humildes, que, encurraladas, vêem seus filhos executados, mortos por balas perdidas, ou ainda, como as tristes Mães de Acari, levados por forças policiais de suas camas no meio da noite e desaparecidos.
Faço um apelo ao nosso partido para que os governos, nacional e do Rio de Janeiro, cessem com o cerco das favelas com tropas militares. Para que, como alternativa, que apóiem a iniciativa de Lula de investir na infraestrutura das favelas do Rio para, como ele mesmo falou, competir com os traficantes. Muito mais deve ser investido no resgate dos jovens para arrancá-los da influência dos bandidos. E muito mais deve ser investido, de verdade, em uma força policial inteligente, bem treinada, que possa descobrir aonde estão e prender os mandantes do crime organizado e seus principais articuladores. E não estão, necessáriamente, morando em favelas. Uma força policial que não tenha na repressão sua única finalidade.
Tanto citam a experiência de Nova York, com o Prefeito Giuliani, com exemplo que devemos seguir. Devo lembrar que em nenhum momento nunca um político americano, nem o próprio Giuliani com sua política de Tolerância Zero cercou com tropas militares (que é o que é a PM) uma zona habitada por negros com o propósito de atacar traficantes, cumprir mandatos de prisão, encontrar drogas e armas, conforme nossos governantes justificam a atual missão. Nem em sonho ousariam cercar Harlem, que seria o equivalente nova iorquino do Complexo do Alemão, cortar a água, a luz, impedir coleta de lixo e entrar com caveirões atirando a êsmo, a qualquer hora do dia e da noite, com o óbvio resultado de muitas mortes por bala perdida. Então, companheiros e companheiras, temos de cair na real. Esta campanha é intolerável, como seria se o bairro cercado fosse Copacabana.
Um abraço para todos os companheiros e companheiras,
Maria Helena Moreira Alves
Com a palavra o governo federal, o governo do Estado do Rio e os Ministérios da Defesa e dos Direitos Humanos.
enviada por Zé Dirceu
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